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domingo, 27 de maio de 2012

Imagens que nos constituem


No dia primeiro de março de 1964 minha família mudou-se par Porto Alegre. Saímos da pequena Forqueta e viemos para o número 276 da Dario Pederneiras, bairro Petrópolis. A distância era de cento e poucos quilômetros, mas a travessia maior do que a transposição de espaço era o cruzamento do tempo. De lá onde o tempo era marcado pelo sino da igreja e pelos rituais dominicais, pelas ruas vazias e poeirentas das tardes de outono, pelo movimento sazonal da carroças trazendo uva para a cooperativa e, no dia a dia, pela sirene da tanoaria que marcava o inicio e fim de cada turno, Sísifo construindo barris. E também pela  hora de ir e voltar do Grupo Escolar Francisco Generozzi, uma caminhada preguiçosa depois do café com leite e do saudoso pão matinal molhado no sumo do bife.
A praça de Forqueta, em frente a igreja, o viaduto por cima dos trilhos do trem, a estação ferroviária que guardava a profissão mais enigmática daquele tempo, a de guarda chaves, quase tão importante quando o vice-prefeito. Ali no entorno da estação onde se jogava bolita as custas do carvão depositado e sedimentado por anos de pisadas por sapatos e pés descalços em seu caminhos de recepção e despedida dos seus que iam e vinham anunciados pelo apito eufórico da Maria Fumaça. Mais atrás, o colégio, o clube, o campo de futebol do União Forquetense, a fabrica de garrafões e todo o universo polivalente de vimes que tanto serviam para cria objetos de nossas imaginações, cavalos, armas e donzelas que percorríamos como cavaleiros andantes aquele mágico paraíso que a memória insiste em inventar.
Pois foi desta Macondo perdida no tempo que partimos em direção a capital do Estado e nos estabelecemos no pacato bairro de Petrópolis, onde os sobrados reinavam soberanos não mais sobre ruas de terra batida, mas sim sobre modernos leitos de paralelepípedos. Partimos e, de uma hora para outra, como uma janela do tempo que se abre e transposta, num instante no passado noutro estávamos em Porto Alegre, março de 64, a pouco dias do golpe militar do dia primeiro de abril daquele ano.
O sobrado era imenso, maior do que a casa velha de Forqueta, e muito maior também do que a casa nova construída de alvenaria, no terreno do lado,  com todas a novidades da modernidade que os anos 60 anunciavam. A viagem foi rápida, mas o tempo de absorção da mudança nem tanto. Durante muitos fins de semana saíamos da capital para encontrar o conformo num prosaica intimidade daqueles que se conheciam pelo nome, sobrenome, origem, pais avós e regiões de onde as família saíram da Itália em busca da superação da fome no Novo Mundo.
Nossa casa em Porto Alegre tinha uma sala de almoço com vidros e basculantes e era cheia de flores e plantas e por isso ganhara o nome de jardim de inverno. Pois foi no jardim de inverno que surgiu um dia o quadro do cão de caça. Uma moldura clássica, com uma tela grande, onde se destacava um setter inglês, orelhas caídas, pelagem preta e branca. Olhar atento, perna direita no ar, prestes a agir. Havia um campo e um muro de pedra ao longo do quadro a óleo. A assinatura  do pintor estimulava a minha fantasia pois que lembrava um musico. Stavisnki. Durante os almoços e conversar se investigava a origem do quadro. A mitologia familiar dava conta tratar-se de um caçador preferido de meu pai. Bernardino sempre fora afeito a caçadas de perdizes como de habito na comunidade italiana. Resultando que  anos a após ano se acumulavam perdizes em conserva numa infinidade de potes e, nos dias de festa, viravam um delicioso jantar com direito a massa e molho.
O cão de caça, na sala do sobrado de Petrópolis embalou almoços e jantares. Embalou as noites de insônia e devaneios. Ali em frente ao quadro desfilaram milhares de campeonatos de futebol de mesa que ele assistia impassível frente aos gritos e choros de desespero por gols perdidos ou botões que se espatifavam ao despencar da mesa em manobras suicida para colocar a bola na rede.  O quadro foi testemunha dos fatos e mudanças. Quando se ampliou o sobrado, ganhado um churrasqueira nova nos fundos da casa, uma lavanderia, um quarto de empregadas e um apartamento de visitas, ele ainda permaneceu no jardim de inverno, ali, impassível e invariante. Guardião das horas paradas.
Até que sem que qualquer pessoa percebesse o quadro sumiu.  
Anos depois eu sai de casa, fui morar no Menino Deus, e nunca mais dormi no sobrado da Dario.
Um domingo vasculhava na garagem em busca de adereços e ornamentos para um peça de teatro, me defrontei com o quadro. Ali estava ele de novo, o cão de caça, ainda atento, em busca, cheirando algo no ar. Olhando o futuro que se intuía na expressão atenta de seu corpo. Mas a tela dava sinais do tempo. Pó tomava conta tanto da moldura como obscurecia a o azulado do céu e o branco da pelagem. E principalmente, dois rasgos nas telas davam uma ideia de morte eminente. Levei o quadro para minha casa e consegui um jovem artista da Casa de Cultura Mario Quintana para restaurar. Ele colou, limpou, revitalizou as cores e de novo estava o cão ali a proteger e atento aos cheiros e ao movimentos. Restaurado guardava as cores vivas de outros tempos.
Foi nessa época que meu pai, num dos últimos natais do sobrado de Dario, distribuiu suas armas de caça. Armas acumuladas nos anos de chumbo da ditadura quando éramos envolvidos pelo medo e a paranoia. Quando prenderam o General Paiva no sobrado do lado e o exercito abordou através da nossa garagem com jipes e metralhadoras. Armas que meu pai se obrigava a carregar na cintura para trabalhar na agencia central do Banrisul. Tínhamos um arsenal.  Lembro de uma Luger alemã que usava para brincar de Segunda Guerra Mundial, um Taurus 38 que meu pai carregava na cintura e um Rossi 22 prateado que descobrimos o esconderijo e, brincávamos sem saber do risco que estávamos envolvido. Tinha ainda uma Winchester, igual aos filmes de mocinho que era a preferido. E as armas de caça. Várias espingardada. Foi neste Natal que ele distribuiu as armas. Simbolismo obscuro mas evidente. Eu ganhei um Sorda, arma espanhola, 12milimetros, cravejada de prata que, paradoxalmente, nunca foi usada. Mas veio com um bilhete onde meu pai contava da emoção da primeira caçada e de sua primeira perdiz abatida, que o levou as lágrimas. Guardei o Sorda no armário e coloquei o quadro na sala da minha casa na Lauro de Oliveira.
Minha filha, no mês que virá, vai sair da casa da Lauro de Oliveira. O destino da casa ainda incerto. Espero não ter que ir ao chão como o sobrado da Dario para dar lugar a mais um arranha céu movido pela especulação imobiliária.  Estudo a possibilidade de tornar a casa da Lauro de Oliveira  onde vivi quase vinte anos num Centro Cultural, um teatro de bolso e assim seguir no sonho de inventar um mundo melhor.  Frente a isso, resolvi levar o quadro do setter inglês, o cão de caça que mitologicamente acompanhou meu pai em suas caçadas e que esteve presente na casa da Dario Pederneiras, que transitou silencioso e atento há quase cinquenta anos os passos da nossa família, suportou o exilio e maus tratos da umidade da garagem, seguiu os filhos que ali crsceram e os filhos dos filhos que nasceram, impassível frente a ascensão e queda do sobrado, e tanto estimulou a imaginação, o quadro, veio finalmente parar na sala de espera do meu consultório. E ele está ali, como uma história repleta de vida, cheia de detalhes, nuances, afetos condensados, fonte de sentimentos dos laços afetivos e marcas do tempo, emblema daquilo que passa, mas acima de tudo, marca daquilo que fica. É o que somos e dessa matéria nos constituímos. Imagens que remanecem.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Reta final do Porto Verão Alegre 2012

Pois entramos nas últimas apresentações do PVA 2012. De hoje a domingo, duas peças em cartaz ao mesmo tempo. No teatro Renascença, SE MEU PONTO G FALASSE, obra de primeira grandeza de Patsy Cecato e Heloísa Migliavacca. A peça nasceu de um exercício de dramaturgia que eu ministrei há muitos anos atrás. Heloísa e Patsy faziam o curso. Helô escreveu uma esquete e Patsy retrabalhou. Depois outra esquete e chegou a mim. Organizei estruturalmente as esquetes formando uma narrativa dramatúrgica. Rescrevi algumas coisas e comecei a dirigir. Foi quase uma brincadeira de criança. Tudo fluiu de uma forma mágica. Tem obras de teatro que são assim, saltam da sala de parto e ganham o mundo em instantes. Ponto G foi assim. Lotou desde o primeiro dia. Nem Bailei na Curva foi assim. Depois viajamos pelo Brasil. Dois anos morando no Rio de Janeiro com a peça, mas um em São Paulo, mais Buenos Aires e assim os ventos do teatro nos levam por caminhos incertos e surpreendentes. E hoje de novo, depois de dezoito anos, Se Meu Ponto G Falasse sobe ao palco.
No Teatro Bruno Kiefer, VENDETTA CORSA, a mais nova peça e a surpresa deste verão. A peça com uma receptividade de critica como há muito eu não via. Um grupo de jovens atores maravilhoso e um cara que ainda vai dar o que falar no teatro, meu assistente de direção, Alessandro Peres. Confiram os dois, pois eu estarei esperando vocês. Porém dividido pois ainda não inventei um modo de estar em dois lugares ao mesmo tempo. Entre a Casa de Cultura Mario Quintana, Teatro Bruno Kiefer com a VENDETTA CORSA e o Centro Municipal de Cultura, Teatro Renascença. Ambos as 21 horas.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Vendetta Corsa, porque a minha ferida é mortal no Porto Verão Alegre - de Júlio Conte


Vendetta Corsa, porque a minha ferida é mortal no Porto Verão Alegre - de Júlio Conte
Data: Dias 03,04 e 05 de fevereiro (sexta, sábado e domingo) - 21h
Local: Teatro Bruno Kiefer da Casa de Cultura Mario Quintana
Valor:  Antecipado
R$ 20,00 Inteira
R$ 16,00 Clube ZH /Banrisul
R$ 12,50 Idoso

Nos Teatros
R$ 25,00 Inteira
R$ 20,00 Clube ZH
R$ 12,50 Idoso

Estudante (venda somente no teatro, duas horas antes do espetáculo):
Sex a dom: R$ 20,00
Pontos de Vendas Ingressos Antecipados Porto Verão alegre 2012

Praia de Belas Shopping
Av. Praia de Belas, 1181 (Praça das Artes)
De seg a sáb das 10h às 22h
Domingo das 13h às 19h

DC Shopping
Casarão Verde - loja 133
de seg a sex das 13h às 19h
Mais informações: http://vendettacorsa.blogspot.com/ 
Leia a crítica de Antônio Hohlfeldt  sobre o espetáculo publicada no Jornal do Comércio do dia 20 de janeiro: http://jcrs.uol.com.br/site/noticia.php?codn=84499

Sinopse:
Uma faca corsa é a protagonista de crimes aparentemente inexplicáveis. Numa sequência aparentemente absurda uma estudante esfaqueia um rapaz na parada de ônibus. Um rapaz desesperado por ter perdido seu filho é impulsionado para seu abismo maior, sente o sangue nas papilas. Um homem enciumado, traído pela esposa e um casal de lésbicas em crise tornam-se vítimas do desejo macabro de Vendetta Corsa. O Delegado Pimentel se encarrega de solucionar os crimes, porém percebe que ninguém é imune a trama diabólica da faca corsa. Atos repletos de barbáries cometidos por marionetes humanas em prol da sede eterna por sangue. 
 A temática gira assim em torno de facas, seu simbolismo e usos. A trama é a investigação de crimes perpetrados pela mesma faca. A magia da lâmina escolhe suas vítimas e seu executor.
Uma parábola moderna do papel do homem frente a impossibilidade de controlar seus impulsos mais primitivos.

"O corte pode ser no corpo ou na alma, o que conta é a permanência, a persistência da ferida. O tempo passa, mas ela permanece ali, sangrando em silêncio, sem perdão nem reparação. Uma mulher com sede de sangue. Um filho perdido, uma traição, um amor não correspondido, qualquer motivo serve de pretexto para a vingança. Uma dor sem fim, que impulsiona para a vendetta. Ela está em lugar nenhum, e surge, em ato, ação e sede. Uma faca corsa é a protagonista de crimes aparentemente inexplicáveis." Júlio Conte, diretor.
Direção: Júlio Conte


sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Saiu na ZH hoje

Por Júlio Conte, diretor de teatro Adolescente, o psicanalista, dramaturgo e diretor de teatro Júlio Conte não encontrava lugar melhor para aprender a dirigir que Rainha do Mar, mesmo que isso pudesse causar algum problema com as autoridades — contornado pelo pai. Anderson Ramos Monteiro e Ieda Kepler acertaram que o menino da foto da página 33 da Zero Hora de quinta-feira era Júlio Conte Já existia autoescola, mas não havia lugar melhor para aprender a dirigir do que o litoral. Em uma praia pequena como Rainha do Mar, mais ainda. Meia dúzia de casas que se aglutinavam em duas partes. Um aglomerado em torno da Colônia de Férias do Banrisul. Outro lá longe, ao lado do riacho. Mais ou menos uns 150 metros. Em dia de bandeira amarela, juntava em cada lado uma multidão de umas 60 pessoas, aproximadamente. Praia cheia. Ali na beira da praia, o tempo era medido pelos centímetros que crescíamos e pelas aquisições de habilidades. À tarde, a praia tirava uma sesta. Era nessa hora que as chaves do Chevrolet 51 do pai eram surrupiadas. Carinhosamente apelidado por meu irmão mais velho de Chaparral, o carro era um tanque. Mas foi parado, dentro da garagem, que aprendi a dirigir. O Chaparral era hidramático. Dois pedais, acelerador e freio, e letras indicando as marchas. O fato é que um dia, brincando na garagem, quebrei o câmbio automático, e o pai teve de substituir por uma caixa normal com embreagem, três marchas e pedais que eu finalmente alcançava. Numa manhã de bandeira vermelha, meu pai foi de carro para a beira da praia. Estacionou, como era hábito na época, na areia, um pouco afastado da "multidão". A beira-mar, ampla e vazia, era o lugar perfeito para desenvolver a habilidade de atrair o olhar da meninas. Pedi para dar uma voltinha de carro. Surpresa, ele deixou. Dirigi o carro até Noiva do Mar várias vezes e, a cada volta, arriscava mais o acelerador. Era bom ver a areia saltando nos rodopios do Chaparral. Respirava a liberdade da nova descoberta. Finalmente, eu sabia dirigir fora da garagem. Foi quando um guardinha abordou o carro. Gelei. Ele se aproximou. Meu pai, vendo a situação, pensou rápido. Correu até o carro e, antes de qualquer ação, começou a gritar: — Onde já se viu! Como é que vai pegando o carro assim, moleque! Eu retruquei: — Mas, pai, o senhor deixou. Então, ele sussurrou: — Não fala nada e vai para casa! Para o guardinha, meu pai ainda fez um discurso, não sabia onde o mundo ia parar, que hoje em dia é assim, não dava para deixar a chave na ignição, essa gurizada é fogo. O guardinha concordou sem ação, enquanto eu corria para casa. O episódio rendeu muitas risadas, e eu demorei para entender a esperteza de meu pai. Um homem de pensamento aguçado e reações rápidas. O mesmo velho sábio que hoje luta com todas suas forças para seguir vivo, no leito 211 do Moinhos de Vento. Sabe quem é a pessoa à direita na foto? Clique e dê seu palpite! A resposta será publicada na ZH de sábado.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Torugo ontem, Pílula de Vatapá

Foi muito bom estar em cena no Bailei na Curva. Uma experiência sensacional que lava a alma e renova o amor a vida. Mas como todo artista sabe, o show não pode parar e hoje tem mais teatro. Pílula de Vatapá. Dias 24, 25 e 26 de Janeiro (terça, quarta e quinta) - 21h00 na Sala Álvaro Moreyra - Av. Erico Verissimo, 307. Espetáculo produzido em 2007 pela Cômica Cultural com grande repercussão de público e crítica. Abre a sequência da violência urbana que foi seguido por Dançarei Sobre Teu Cadáver, Larissa Não Mora Mais Aqui, A Milímetros de Mercúrio e Vendetta Corsa. Agora, Pílula volta em nova montagem e com elenco renovado. A Cômica está formando um grupo de atores que segue trabalhando juntos e cheios de paixão rumo a formação de um grupo permanente de teatro e de repertório.

O espetáculo explora a narrativa não-linear para contar uma história chocante e surpreendente, pontuado pelo poema “A Flor no Asfalto”, de Carlos Drummond de Andrade. Com temática forte e contundente, vale-se da fragmentação do texto e da direção para desenhar uma trama de eventos caóticos e uma intricada rede de relações recheada de sadismo, ciúme, egoísmo e amor desmedido.

A história conta, num ritmo alucinante, as histórias pessoais de oito personagens que se entrelaçam formando um grande painel de fatos da sociedade contemporânea corrompida por status, dinheiro e poder. A trama gira em torno do Deputado Morvan, um político com vida pública acima de qualquer suspeita, mas que esconde um universo particular de traição, pedofilia, incesto, drogas e corrupção. Morvan está prestes a pôr em prática um plano milionário de remessa de dinheiro para o exterior quando o caos se estabelece, fazendo aflorar o pior de sua relação com todos que o cercam. Numa espécie de teatro-jornalismo, a história é contada sob a narrativa da Rádio Desespero - a cada virada na trama, o locutor dá mais uma dose de seu amargo relato dos acontecimentos.

Direção e Texto: Júlio Conte

Elenco: Cristiano Godinho, Fabiano Geremias, Fernanda Moreno, Mariana del Pino, Nina Eick, Rafael Albuquerque, Saulo Aquino, Sheila Gomes e Júlio Conte como o locutor da Rádio Desespero

Ingressos no local ou nos pontos de venda (http://www.portoveraoalegre.com.br)

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